29
Jun

IDEIA MARGINAL

Você que se transforma

Em alquimia de absurdos

A leveza do chumbo

Em seu verbo macio

É o peso da lã

O novelo antigo

É a linha do mosaico

De sua obra finalizada

Simbiose de carne crua

Nua verdade

Desnaturada em casulo

De seu tempo de areia

E de água

Realidade saturada

Em mar, deserto

Amplidão

E você

Na completude

Da vontade dos relógios

O ovo oco

Advento da forma essencial

Sem conteúdo

Núcleo e citoplasma

Nulos

Estética do vazio

Desenho com traço de inutilidade

Concebido por cloaca

De vanguarda

Provoca discussões

A respeito da unidade

Seu centro vácuo

Resolve questão

De galinha choca

Galinha de design moderno

Abre precedentes

Ninhos inteligentes

Estanho

Amianto

Atmosfera

Em tons de sépia

Mas calma

Esperando a fúria

De magma depois cinza

De fresta impronunciável

Senda inominável

Dar nome aos bois

Às estrelas

E aos automóveis

Todos os fatos

Não passam de especulação táctil

A cortina de fumaça

Confere aos corpos

Nossa ignorância

O espectro de cores

Empalidece

Os timbres distorcidos

O câncer na garganta

Tabaco e usinas

O beijo da mulher aranha

Cinzas

Finas camadas

Textura decantada

Repousando sobre a brasa

Brasa

Corpo de inconstâncias

Vibrando calor vermelho

Transformação em fumaça

Fumaça

Prolongamento do fogo

Em sua diluição

Partículas de oxigênio no fogo

Fogo

Anterior a tantas outras

Coisas

Coisas

Em conjunto com a roda

E descobertas cuneiformes

Fumar

Sugar o sumo das fagulhas

Geralmente de folhas secas

Vigília poética

Sobre a pedra antiga

Lisa

A roer os pés

E ranger marés

Escorregam motetos

Na lua nova

Num tempo ancestral

O velho adorno

Cruz

Arte fato

Um senhor que morreu

Permaneceu morto três dias

Um galo que canta

Três vezes

Todos os dias

Não!

Sobressai a ladainha

Uma eternidade no chão

Uma chaga no pé

Noite

Romaria

Uma chaga na mão

Uma eternidade no passado

No movimento pendular

Do relógio

Do turíbulo

No eco secular

Das matracas

Neste visgo e jejum

Nesta terra

Chorando sangue

E verônicas veladas

Em sinos

Que só anunciam o fim

Este milagre do começo

O primeiro grito

Da primeira besta fera

Vem tudo findar

Nestes passos fúnebres

No sono do oceano

Onde a chaga

Dói

Aperta o nó

É quando deposito meus desastres

Em explosões

Numa espuma branca

Do sal de outros ofícios

Ecoando tempos novos lamentos

Antigas feridas

Brotando

Como flores de epiderme

Lágrimas de orvalho

Na carne do caule suspenso

Nas vagens cujas sementes

Verde vagar

Navalha

Rosa de ventos

Esculpir muros, lamentos

Este torpor

Este soberbo sopro

De mão turva

Manobrando

O riscado no chão

O desenho lânguido

O salão vazio de som

E a soleira

De visão equivocada

Entre pé e parapeito

Arrebentação

E quebra de maresia

Na música do mar

Inteira numa concha

Quebram acordes atonais

Pelas fossas nasais

Quebram em chuva

As nuvens de tempestade

Distante

De qualquer evento astral

Importante

Permanece o cheiro

Do azedume

A temperar a carne fresca

Dos cardumes

Recolhendo salmouras

Conservando

Cores em escamas

Da sobriedade

De cena improvisada

Em sua anatomia

Reservatório

De líquidos e desova

Rema

Naquela enseada

Num banco de areia

Um látex

Que resolve os homens

Apaga-lhes a saudade

Mereja

Desorientando as formigas

29
Jun

versos ao vento sentido sul

As mãos na superfície da areia

Os veios

Com a textura de cimento

Os vestígios de operário

Na leitura diária

Do jornal popular

O esboço do verbo querer

Morando na saída

Do final do dia

Saber as migalhas do pão

E as frações de aguardente

Na crônica do crime do dia

Do escárnio do dia

Colocar o aluguel

E as notícias do esporte

Em dia

As questões de ordem

E colocar o sexo em prática

Na redenção da noite

O culto ao sábado

As chagas

O milagre

José Modesto

Ressuscita ao terceiro dia

E precisa estar de pé

Na segunda feira

Absolvido do absurdo

Absorto em absinto

Abstrair

Prosseguir peregrinação

Para melhor senso estético

Para vento ao sul

Percepção de sola dos pés

Pisando chãos inéditos

Semeando grãos epiléticos

Sentindo caos

Aumentando graus Celsius

No seu apocalipse

Pintado de ocre

Na ferrugem de sua tinta

Seu óleo

De propriedades entorpecentes

Aromas hipnóticos

Invadem nossa sala

De estar

Ejacular signos

Os místicos têm razão

A casa das coisas

Só existe em significados

Quando é invisível

E inapelavelmente intocável

Todos os objetos

Só possuem função

Ao abstraírem de si mesmos

Todas as atribuições

Moram na filosofia

E o desejo

É no território da loucura

Meus pulmões

Em regime siderurgia

Meus rins

Filtrando o racionamento

Meu estômago e o agrotóxico

Meu coração e o anti-psicótico

Meu fígado

Algo definitivamente etílico

Meu intestino

Digerindo rochas e pasto

Ruminando algum entendimento

Minha mente

Este apêndice examinando o poema

29
Jun

to madeleine

Deixa o sol entrar

Solar na sala

A claridade calou a idéia

Calo de pensar

Meio dia bateu soleira

Solo soletrou melodia

Solfejo

Em acordes de terças

Sol me acorda na quinta

Dormia suspenso

Três sustenidos

Na clave de fá

Assoviei com passo binário

Breve mas forte

Tempo clareado na janela

Desafiando o melisma

Desafinando as cordas

Do violoncelo

Assim falou pela luz

E no final foi o verbo

Sol

É clonazepan

Um hálito fresco na saliva

Uma questão de segurança

Debaixo da língua

Uma cor que são cores dissolvendo

Um gosto que são gostos em expansão

Uma dor dissipada por metabolismos

Que doravante

Ignorarei por convicção

Só quero alegria comprimida

Calma comprada em drogaria

Pílula desfazendo tudo de bom agrado

Pelos bares

Entre os pares

Dessa sua solidão

Esconde desafortunadamente

Uma rosa

No cabelo

E na vontade

Afogada

Num copo

Sem gelo

Um grito

Um apelo

Afogado

Numa beleza

Afoita por mais garrafas

Por esquecimentos voluntários

Escreve pelos bêbados

Remetentes

Sem destinatários

Sem destino

Ou Décio Pignatari

Pelos bares

Entre os pares

Uma prenda aos malabares

Destilarei você

Em minha taça de espumantes

Em dipirona sódica

Em um alívio ofegante

Cantarei em você

As cantigas mais banais

E o fruto mais óbvio do teu ventre

O umbigo

As cantigas de amigo

Amor e morte

Em uma banheira

Em qualquer outra fogueira

Arderei em vaidades

Desmancharei neste corpo

O objeto que desejares

E outras excentricidades menores

Destilarei você

Em gotas de purgantes

E em coisas piores

Empresta-me seu guarda chuvas

Hoje caminharei para o futuro

Preciso prevenir de tempestade

Caso os apocalípticos tenham razão

Saberei disso com a brevidade

De um soluço

Sem utilidade para redenções

O porvir me espera

Sem o perdão presumido

Ser de sua posse

Sua posse é uma foice afiada

E braço forte

De golpe preciso e cirúrgico

Tenho agora o nó de muitas agruras

E o pó de tantas venturas

Suor hidrata sexo

Meu joelho exangue

Arranha o lençol

Conheci o ritmo de seu quadril

Um fluido quase anil

Jabuticaba sem casca

Prazer pálido

E o visgo jorra nos encaixes

Músculos laboriosos

Adjetivos disparatados

Ardem motivos dispares

Atados

Amalgamados e ainda

Há mal amados

Queria escrever um poema

Ainda não escrevi um poema

Por hora

Posso dizer que uma sirene me atrapalha

Imaginar qualquer urgência nela

Faz-me mudo este som estridente

Que esbravejei pela garganta

Ira tão vã! Tão bem intencionada!

O bálsamo dos bálsamos

Que quis escrever

E que sempre não pude

Vindo da ocorrência provisória

Do grito de uma sirene

Saio dos eixos

Saio pelas tangentes

Pelas saídas de emergência

Os extintores de incêndio

E o fogo na alma

O cântico dos cânticos

As imperfeições do universo

Saber delirar que não existo nele

Este alívio súbito que vai embora

E o resto não é poesia

Acontece em escapar da realidade

29
Jun

DE BARRO E ARGILA

Ergo alguns tijolos

Para a fumaça de nossos dias

Moldo algumas pedras

Nas brumas e no esmeril

Lapidando o tempo

Lápides e fortalezas

Em granito

Construo a mim mesmo

E derrubo-me em golpes de estado

Lanço-me do concreto e argamassa

Invento-me saltando

Mergulhando em rochedos

No precipício de desabar

E de brotar do chão

Um leite para as flores

Uma resina de milagres

Este orvalho nutrindo seivas

E veneno

Este látex que sangra as arquiteturas

Não mais são apenas árvores

Companhia dos vôos

Aqui está o leito de minhas mortes

Em plataformas

Em espaço projetado para o tráfego

Para o trânsito dos desejos

Alimentado pelo óleo combustível

E outras empáfias

Estou ao chão

Parte dos meus líquidos

Procuram galerias

De subterrâneos

Outra parte coagula

No calor onde idéias estacionam

No calor do asfalto

No calar dos verbos em meu corpo

Em meu copo de absinto

Ergo alguns tijolos

Para o leito de minhas mortes

O barro

Não te esculpe o sangue e o desejo

O barro representação forma

E da coloração amorenada

De seu corpo e seu cansaço

Sua constituição em proporções

Assim como as primeiras estátuas

Soam como o gutural registro

Do primeiro verbo em timbre e grito

Do primeiro deus

E o instinto natural

Em dizê-lo como em nossas medidas

O primeiro homem em nossas medidas

Assim sacralizamos seu contorno

Como conteúdo de milagres

Pois que do desenho nosso

Não ouvimos o sopro

Presumimos um canto das esferas

Moldando o existir

E criamos a noção do verbo ser

Ser é algo sem saber

Inicio ou fim

Sempre sem ser

Sempre experiência molde de barro

E lama

O elemento

Como é a areia

Fragmento de rocha

Avento de intemperismo

Alguma intempérie

Até serem grãos

Algo que aglutinamos

No desejo de construir

As paredes do mundo

E afrescos

Pigmentos

Como o néctar da terra

De renascença

Como o sêmen

Entre as grutas

E uma libido xamânica

]imprimindo vidas

Em rochas que se fazem

Por si mesmas

Interferimos

Assim é a capela cistina

Assim são os arcos da lapa

Com a areia

O cimento

E nossas águas

Massa fermentando

A marca de nossas

Preocupações pequenas

29
Jun

O CANTADOR E BANDOLIM

O cantador e bandolim

Com rama de alecrim

Brincou de pousar no jasmineiro

Toda paz do mundo inteiro

Quermesse de brincante

Com aquela renda

De pedra brilhante

Água marinha

Água viva

Bordada na chita

Algum ungüento destilou

Do alaúde do cantador

Bandeirola de são Jorge

Lua e dragão

Anuncia o limbo do pagão

Meninos de melhor sorte

Afilhados de são João

Deus dê boa morte

Ao velho finado Tião

O cantador e o banjo

Uma feira nos chapéus

Fogueira e cordel

Folguedo e um sarapatel

A cuia para o andante

Para o pedinte da alegria

Toda a bênção que existia

Jorge jardineiro

Estava a podar orvalhos

E arestas da noite

Nas brevidades do breu

E os homens

Estavam a falar daquele homem

O outro

Que era poeta e cantador

Cantou cantiga e supurou o mal

Extirpou o mal da profecia

Brincou folia e carnaval

Depois no alto horizonte do manguezal

Sumiu qual profeta

Monge do canavial

Injeitou o caldo de macaxeira

E do ribeirão

Soprou toada em sua beira

Desembocou na ribanceira

E Jorge jardineiro

Continuou podar orvalho

Sem saber de seu trabalho

Como quem planta num viveiro

A flor

Do cantador

Descansando o dia inteiro

E cheirando noite adentro

A prenda era um cacho de flor

A rezadeira se aquietou

Da reza sem cessar

Quando enlaçaram as fitas

No pau de sebo

No mastro

Do senhor dos congos

A catira pisou as rendas

Do chão de mãe Maria Catirina

Viúva do carpinteiro cantador

E mãe do navegador

Navegante de mar

E brincante de folia

Pediu à Zefa morena moça

Uma prenda pro seu amor

Antes do fim da congada

Uma prece pro pai cantador

Uma cantiga apaixonada

Uma cantilena de donzela bem amada

29
Jun

VALSAS MENORES

O sal tem o apetite das marés

Inunda-me o beijo das águas

Além Tejo, nos pés

Nas anáguas

Começando em conhecer a areia

Vizinha das ondas

Apagando anagramas

E outros vocábulos efêmeros

Como o mesmo desejo

De esculpir castelos

Com a engenharia

E a intimidade de espumas

Jogando com o som

Arrebentação

Trazem uma valsa menor

Rigorosamente menor

Litoral que é imensidão e pesca

E o dó maior

Rente ao lado oposto da balsa

Após Caronte

Após Calypso

Valsa de lamentos

Lamúrias que o mar tem vocação

E esquece

Valsa de anzol certeiro

Do milagre em cardumes

Oceano oscila

Tamisa Reno

Nilo Sena

Ribeirão Arrudas

Suas galerias

Arte e esgoto

Canoa de balançar

Jangada e remos

Regata e corredeiras

Navegar uma Mensagem

Que espera

Navegar um equívoco

Que espera

Convivendo com convés

Ao invés conveniência

Vela

Que espera

A proa, os nós, os fios de Helena

A dança da valsa

E todos os engodos do mundo

Com os pés no ocidente

E a cobiça por outros continentes

Valsa de harpas e arpões

Carpas e canhões

Violetas escopetas e tinhorões

Valsas carpindo os séculos

E o silêncio das revoluções

Valsas para o inverno dos ursos

E para a reprodução dos salmões

Para todos os colírios

E para todos os sonos

Esta valsa de cães sem donos

Para Tirésias

E para Balaão

Estes versos em Viena

Em alemão

Uma maresia me invade os cheiros

Uma alegria me cantam as gaivotas

Um dia de bálsamos

Sua lira

Guardo no ensejo

De outros naufrágios

Quando música

Água e adágios

Termina por acontecer

Danúbio anil

Turvo e vão

Sujo e vil

Sonhei

Com meus pés pisando o mel

Deste lado, melando na praça central

Mel, aço de montanhas

Verdes, açúcar de cana

Assim compus a cena

Para fotografar a cidade

Com o passado na garganta

Engasgado

Com pasta de coca

Mascando a pasta de dente

Produzindo bolhas

Entre a boca entre as línguas

Idiomas

Entreabertos

Entre seu beijo e a recusa

Seu vestido entra em seu corpo

Como a única beleza

Nesta galeria

De naturezas mortas

E outras mortes

Dependuradas na parede

Sua estampa

Censura histórias antigas

Inaugura um temor

Uma inquietude suposta debaixo dela

Que não consegue anular

Os soluços da terra

Vindo abaixo desabando cores

De doce de leite

Organizando uma sintaxe

Para uma gramática de silêncio

E uma semântica de sândalo

Seu novo sintagma

No começo de um rochedo

No seu primeiro dia, cedo

Sonhei, sonho eu

Um início das chamas

Para os batismos

Meus carinhos

Em seu corpo

Nascedouro de fogo

Seus olhos eleitos

Pelas lentes

Que ajudam minha miopia

Seus seios

Minha homeopatia

Seus anelos

Em minha psicopatologia

Enroscando entre os dedos

Novos arabescos

Entornando das pontas

Outros sabores

A teus pés

Sonhei

E estávamos no chão

Dentro de um alçapão

Sob um céu caudas e compotas

Estávamos aventurados

Para ignorar o mundo

Suas sombras

Retomam algo líquido

Em seus ouvidos

Sou esta confusão

Causando te cólicas

Cheguei bem cedo

Cheguei mais tarde

Depois de orgasmos

Muito marasmo

Mais tardes e mormaços

Suas gavetas

Seus perfumes

Estiveram comigo

No temor América do Sul

Este temor incestuoso

Propagando idéias anarquistas

E propaganda institucional

Nossos domingos

Esperando e descansando

Entre a pílula e a coca cola

Entre o mendigo e a esmola

Enfim

Nasci

Com vocação para andarilho

E entôo o inferno em estribilho

Enquanto tudo envelhece

Em seu álbum de fotografias

Em sua caixa de novelos

Desvelo o prumo das arquiteturas

FRASES MUSICAIS

Deflorei

Desmanchei a cor

Em pigmento

Desmoronei chuvas

Em seus lábios

Roxos

Lubrifiquei minha oratória

Em sua saliva

Que coagula meu verbo rouco

Frases musicais

Deflagram um tema

Para anestesiar

Sua dor de outrora

Sua dor recorrente

Em outro carnaval

O mesmo samba

Ainda sem o visgo de lembrar

Sacudi o som

Fiz embolada côco

E matinê

Quarta, céu cinza

Ais

Desventura em secreções

Meu pigarro tonto

E minha embriaguez vesga

Minha vez gameta

Embrião

Orixá de muitas flores

Muitos perfumes

Baratos

Baratas invadem minha casa cancerosa

Minha cava mucosa

Casta imagem em verniz

Lustrada

Castrada

Minha guia recolhe o quebranto em oferenda

Ilustração do mar

Fendas em vermelho

Sendas no terreiro

Findas por inteiro

Emendas retalhos

No estandarte de são Jorge

Seu dragão majestoso

Na solidão generosa da lua

A vigiar o tempo dos amantes

Orientando-se

Pelo langor dos jasmins

Jazendo em mim jardins

Pela lavanda

Descarrego

Arrego

Numa peleja

Santo forte

Numa labuta

Hemisfério sul

Sol e acalantos

Soletrar e cantar

Na orla do pranto

O sulco a veia aberta

Trópicos sangrando a seiva

O látex

Na linha que entrecorta

Caroço de magma

Níquel e ferro

Cunhando eldorado

Ouro desnudou montanha

Éden

Inferno

Algum mito mais antigo

A geometria plana

A teoria da psicanálise

O teorema de Pitágoras

Os cristais e a literatura

As resinas e a gema

O castiçal e o madrigal

Os sonetos

Tales de mileto

Candelabros dispostos

Na heresia de seu diabo

No pecado de sua poesia

Hermeticamente fechada

Em ecos e ais

Com teor de gemidos e mais

Teologia

Patologia clínica

Cinismo de precisão cirúrgica

Replicantes fractais

Fossas abissais

Orifícios

De som anasalado

Anestesiado

Candeeiro

De querosene atômica

Sal de reação efervescente

Creme emoliente

Refinado com aclimatação

Cerâmicas e canduras

Torneadas em moldes

Cor e calor

No forno que fabrica

Estágio pré-orgasmo

Pré-contágio

Lâmina

Recipiente viral

Preservativo

Ereção matinal

Em escala diatônica

Gasolina e música nas esferas

Uma concepção platônica

Eu tenho estima por Zoroastro

Gosto da figura dos totens

E me simpatizo com macumba

Tenho fé em Confúcio

E um pé na cidade proibida

Desloquei todos estes cismas

A este canto do ocidente

Que nos oriente futuro melhor

As pedras do islã

Os xacras e o xamã

Talismã amuleto

Tales de mileto

Zeus e a loba mãe de Roma

Filhos de Ulisses

Filhos de Gandhi

O tão charmoso

Século vinte

Deus

Confabulando lutas entre nações

Num ventre de mulher

Platão roboão e o classicismo

Renascem afrescos

E nós paramos

E Nostradamus?

As pestes a vacina

A penicilina

As vestes a vagina

A vaselina

Viva o estado democrático de direito!

Os grandes banqueiros

Estes senhores

Financiando nosso alívio

Com a assinatura de dois avalistas

Duas testemunhas

Uma passa fome

E outra se prostitui

Ambas com cinco filhos

Viúvas ou mães solteiras

Parindo este Brasil

Pajelança candomblé e cruz

Trindade e confusão

Sonho de realidade

Em meus pesadelos

 

 

 

 

 

 

 

 

DODECAFONISMO

Do écran

Pesco uma rã

Não me importo se amanhã

Faça sentido

Ao vinagre

Peço o milagre

Faço pedido

Vinho antigo

Pois venho antes

Do resto

De gesto indigesto

Congestão

Com tesão

Engulo o nexo

A gula

O sexo

Penetrei no marrom glacê

Fui dormir lambuzado

Mandíbula quadril

Estou deitado

Meio blasé

Permaneci um próximo cigarro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFARTO

O romantismo ainda existe

A um canto com mofo

Um cântico

Uma dicotomia barroca

Lobotomia das proporções

Um exagero nos traços

Ânsia em preencher vazios

Com brindes de absinto

Com pétalas pálidas

Um escândalo em begônias

Taças repletas

Soro veneno e sal

Amoníaco

Solução decantada em fracassos

Um quântico

O quão tântrico

Tétrico

Átomos espaço e uma cosmogonia

Misantropia revestida

De léguas solitárias

E tumbas soluçando o poema

Vazão de versos e vultos

Em luz e sombra

Silueta clássica

Mas vulgar

Anatomias revisitadas

Em verbos rebuscados

E álbum de fotografia

O grito num ventre de morte

A vida arbitrária

À sorte

Ao relento

Sortimento para os abutres

Escárnio para quem queira

Uma poesia sem eira

Ou beira

Meu horizonte

De torpes visões

Sórdidas constatações

De cruz e teias

Pergaminho e traças

Vinho Cachaça

Uma lágrima de amor

Envernizando sentimentos

Mórbidos

Infernizando as cores

Sem tônica

Ou dominante

Um acordo tácito com o viver

Um infarto

 

 

 

 

 

AO VERSO

A ti

Que comprime o ar

Das palavras proféticas

E o explode em odores inalcançáveis

De signos ganhando outras expansões

Entre ouvidos e atmosferas

O extrato dos vácuos compreendidos

Em equações irresolutas

Substrato de espaços em profana desordem

Caos a beira do cais

Com águas turvas torneando

Seu traçado de tacanha geometria

Uma geografia em sulco e relevo

Textura

Desnudada

Um ritmo de liras

Quimeras

E outros devaneios considerados lícitos

Tão ingênuo

O quão letal

Aspergir seus cheiros de veneno

Do escândalo em flores artificiais

Que inspiram lápides

Ao correr dos séculos

E ao enganar-se

Em breves suspiros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AO VERBO

A ti

O verbo

Uma obra por terminar

Uma construção sem findar

É o fazer apaixonado dos gestos

Contidos no corpo

Expressão

Linguagem

Mímica e leis naturais

Ou então

Estas abstrações como o tempo

Senhor de todas as necessidades

Este verbo

Há de ter coragem contra o tempo

Até que se cale a boca de quem o profere

De quem faz

Com chão

Cruzes

Suicídio ou revoluções

Tudo isto está dizendo

Quem tem ouvidos ouça

Estes afazeres

Um imenso canteiro de obras

Sem a justa forma

Do acabamento

Ir fazendo não se faz acabamento

Poetas e operários

Encantamento

29
Jun

O SENHOR DE ROSÁRIOS E OS BANJOS CIPRIANOS

Estou velho. Perdi-me no calor e nos dias destas rochas. Restou a senhora viúva de Severino, o alferes que em campanhas antigas nos defendeu, e com bravuras.

Sua viúva me encomenda o registro de notas de seu grupo de anciãs que no tear ganham um jeito.

Tecendo histórias veladas… Queria romper com este memorial de ofícios, inúteis depois de constatados todos os enganos.

Nossa ilha, também por sua compleição topográfica e seu recolhimento na arbitrariedade dos cartógrafos, tornou-se um monumento para si mesma. E um trabalho de socar grãos.

O tempo se transformava lentamente em cinzas cereais de uma dissolução de braço e pilão.

Outrora, tive ocupações diversas. Como geômetra, fui responsável pela construção de nossos aquedutos, fui também coletor de impostos (quando do registro das atividades mineradoras) detinha os conhecimentos de um antigo ourives.

Redigi muitas demandas para a Coroa e para sua ânsia em regulamentar as leis com objetivo principal em punir quem não estava de acordo. Neste ponto, não tive remorsos.

Afinal, havia lido muitos dos códices da Coroa e sentia-me honrado em interpretar suas deliberações.

No entanto, a tarefa que mais me agradou foi ornar algumas de nossas cidadelas (em suas paredes de rocha) relevos de nossa escrita e de valores que os séculos encarregavam a mim de propagá-las quem sabe, a outras civilizações.

Diziam de profecias que até então não aconteceram. E eu sabia que assustaríamos o resto da continuação da existência e alimentaríamos dos seus gostos por medos e objetos de fantasia.

Outro tempo virá brevemente. Logo, nossa sociedade estará extinta e novas sabedorias examinarão nossos vestígios, ruínas e tragédias.

Haverá enfim um tempo em que todos os outros tempos serão estudados e diagnosticados o legado de cada um.

Temo que quando chegar esta hora será tarde demais.

Simeão cuidava de nossa balsa. Não navegava por carontes mas, trazia peregrinações de outros infernos. Era o tempo das guerras. O pequeno canal que ele cruza em oito frações diárias, tinha uma desrazão que não se media com sol ou lua.

Nem o templo do outro lado, imaginando as novidades do calendário do céu noturno, poderia mensurar a força daquele monstro que movia aqueles errantes em sua balsa.

Muitas indagações travei com Simeão. Já neste tempo de silêncios. Víamos, ao balançar das águas em quietude, o dançar da balsa despovoada sem achar resposta alguma às duvidas de beira do açude.

Gramíneas alertavam para o tempo de gestar, para o tempo de criar raízes, era a vida tentando um modo mais fácil.

Simeão pensava na leveza e no descompromisso que estas hastes, no seu vínculo com terra dentro. Ensinava que era preciso crescer para dentro, porém não precisavam alcançar profundezas como buscavam as árvores, pois não havia outro Hades senão o interior (antes das pragas).

Esta vegetação diferente, rasa, alastra sem preocupações de chegar a alturas e não percorrer o chão era outro arranjo no espaço.

Sim Simeão! O chão ainda é o elo. O ventre que nossas revoluções traíram. O elo não era para ser água. Esta apenas se diverte em nosso chão, deitada e rolando, indiferente, oferecendo ao chão o fecundo. Que seus filhos recusaram, e é este o motivo da inércia de sua balsa!

Nossa Queronéia só trouxe amargura. Algum tempo depois, o vice-rei conseguiu um acordo com as terras estrangeiras. Ninguém duvidaria das habilidades diplomáticas de Amantino, e todos acreditavam que a volta dos corpos traria novamente a dignidade ao nosso povo.

Já em nosso território, aqueles restos mortais amontoados nos porões das naus feriram de morte a população. Surgiriam outras tragédias.

Adelaide, governadora de uma província, iniciou uma inconfidência que chamava de libertário levante. Uma nova investida oceânica, entre os adeptos, muito burburinho e revolta, a insurreição começava a ameaçar os pilares do reino.

Como em todas as rebeliões, havia muitos interesses em jogo, obscuros e velados.

Ninguém saberá afinal quem assassinou Adelaide. Mas, homens ligados a Amantino foram incisivos em acusá-la de separatista.

Com isto, o vice-rei perdia prestígio. Até ser acusado de arquiteto do atentado à governadora.

Em meio a naus que chegavam com cheiro de morte, Amantino foi encontrado, suicidado no cais do porto.

O imperador não conseguiu conter a desordem e a guerra civil. 

As chuvas castigaram muito o vilarejo das cercanias de Manoel Cipriano. Seu cultivar de grãos e áreas limpas dos gafanhotos abastecia quase toda a ilha. Todas as provisões alagadas serviram em primazia aos ratos e depois aos homens famintos. Manoel Cipriano nunca mais se refez da doença de sua terra e o que acontecia eram os ecos de seu banjo cansado.

Depois de algum tempo de pântanos o vice-rei Amantino providenciou subsídios para que Cipriano aproveitasse os brejos com plantio de arroz. A cultura deu certo mas Manoel Cipriano, ao invés de comercializar toda a colheita, a distribuiu entre os pedintes náufragos atravessando longínquas terras encharcadas.

Amantino não o perdoou, cento e quarenta homens da guarda da coroa confiscaram suas terras, Manoel deixou seus domínios com seu banjo e outro objetos poucos. Juntou-se aos errantes.

Cipriano consultou mais uma vez Inácio (que previa o tempo através da constituição das flores e das aparências de caules e folhas).

E Inácio lhe disse que na semana próxima viria uma tempestade de iminência e moléstia.

Cipriano então construiu de juncos uma canoa e entregou seu banjo a Simeão. Foi dissolver-se na revolta do oceano em sua canoa ataúde e em suas águas eleitas em chuva.

Simeão, atordoado com tanta desgraça, e com a ida desafortunada de Manoel Cipriano, decidiu entregar o banjo doado a ele a um luthier chamado Torquato.

De início, Torquato não vira muita coisa no banjo. Mesmo assim, não o ignorou por completo. Até que percebesse nele, em suas cravelhas, hieróglifos talhados.

Torquato pediu que Simeão me chamasse para decifrá-los.

Tratava-se de um fragmento de uma das lendas de criação da ilha. Que dizia do despertar do Uno quando dois anjos caídos lhe trouxeram uma harpa. O Uno tocou-a e o Criador desceu numa fenda do firmamento e o recomendou, passo a passo, o que deveria fazer para fundar e povoar uma ilha, o Uno assim o fez.

Torquato abismara-se a ouvir esta história que desconhecia. Com muito interesse por ela, passou a fabricar uma série de banjos com as mesmas inscrições. Intitulou esta série de Banjos Cipriano.

O luthier não viveu muito tempo, seus pulmões em tabaco não deixaram. Portanto não viu sua criação ser contrabandeada por fortunas. Um prejuízo enorme ao fisco real.

Os banjos Cipriano encontrados em nossa terra eram apreendidos, assim como fizeram com as terras cujo dono tinha o mesmo nome e, justamente por sua história se tornar quase uma lenda, valorizava tanto este objeto de discórdia.

A corte tinha muitos fiscais, quase todos corruptos, o que fazia com que os banjos rapidamente voltassem ao mercado. Coisa que Torquato nunca imaginaria.  

Com o suicídio de Amantino, o imperador não tinha recursos para conter a horda, no meio dela, havia um desertor da guarda chamado Átila. Ele seguiu com os revoltosos para o sul. Para que seu comboio firmasse lá, suas bases de operação.

O imperador enviou um agente especial para subornar ou torturar os rebelados famintos.

As tropas sabiam então, que Átila rumara para o sul. Foram ao seu encalço com todas as guarnições para exterminar o bando.

Átila promovia saques aos burgos e fazia escravos seus reféns. Mas, numa ofensiva frustrada, foram pegos. A infantaria matou quase todos. Os sobreviventes se auto- degredaram. Muitos militares também morreram nesta campanha.

A partir daí, os presos viraram escravos da coroa.

Exceto Átila, que foi alvejado por flechas e pedras. Em seguida, seu corpo foi arrastado por sete cavalos durante o percurso de sete milhas.

O imperador se viu com um pouco mais de alívio. Certamente isso não o isentou da culpa de que, se Amantino fosse vivente, teria contornado a crise com menos sangue e maior impacto político 

Ezequiel Quintão era um habilidoso caçador de antílopes. Morava ao norte. Quando da minha visita às charnecas de lá, o conheci com um banjo Cipriano que ele encomendara de Torquato.

Quando o caçador se aproximou o saudei e entre a conversa estava a dizer que conheci Torquato. Ezequiel se mostrou muito receptivo. Quando lhe contei a história de Manoel Cipriano, convidou a entrar em sua morada e mostrou-me outro banjo que havia comprado no mercado negro, mais especificamente de um dos seguidores de Adelaide

Para financiar seu levante.

Mas quintão não era confiável tanto assim, isso constatei quando ele me mostrava um terceiro banjo, contando que havia subornado um capitão para adquiri-lo.

Seu temperamento duvidoso ainda ia além, ele não sabia dedilhar uma nota sequer em seus instrumentos! O que Quintão fazia era confeccionar invólucros para os instrumentos com o couro de suas caças

Ofereceu-me um. Eu disse que era perigoso retornar com um banjo Cipriano mas aceitei uma coberta de couro de antílope.

De mais a mais, nos dizemos mutuamente, diálogos desimportantes. E, para concluir, sou um homem sem saudades. Todavia lembrarei desta estada como algo que quisesse relevância.

Demétrio era um carrasco medonho, tinha a aparência de uma besta, uma fera do hades, o cão dos indigentes. Executava os traidores do império com gana e injustiça, assim era como todos o conheciam.

Sua fama amedrontou a todos por ele ter decapitado seu irmão gêmeo sob a acusação de trafico de banjos Cipriano.

Seu pai, indignado, salpicou veneno no almoço do carrasco. Daí em diante, não tivemos ninguém a executar esta função.

Damasceno, o pescador, além do pescado, sabia também o dialeto dos invasores. Foi muito útil para Severino quando enviava informações ao seu brasão de onde rumariam os mercenários.

Tal habilidade e o sigilo com o qual tinha que exercê-la o renderam uma péssima reputação. Quando não era ignorado com o desprezo que merece a traição, era alvo de atentados de patrícios que não sabiam quem exatamente ele era. Seu sopro fazia soprar as ventanias para movimentar seu pendão para que fizesse tremer todo o inimigo.

Foi com esta bravura que desvencilhou das maledicências sem ostentar o tesouro de suas virtudes e honestidade de suas falhas.

Quase um torpor em seguir em frente, parecido com seu gesto diário de alçar as tarrafas ao mar e à sorte incerta dos peixes.

Mas, quais destas coisas fazem diferença na vida de hoje. Apesar, é claro, do sumiço dos cardumes.

Ter tido sapiência de pescador e de chefe de estado, ao mesmo tempo em que, até o mar sem vida hoje o castiga.

Que vida hoje tem este mar?

Avançando, recuando… Ensaiando uma praga que os verbos dos bárbaros conjugavam em seu conhecimento, como destituí-los de ação nesta inércia?

Na enseada. Numa pedra, fui ter com o Damasceno. Fui ter com ele quando sua fama de algoz tinha naufragado como tudo o mais aqui!

Por mais que, corriam estes boatos e não desse a eles atenção, por ser eu preocupado com meu modesto posto de burocrata. Via ele sempre pescando, em suas jangadas de própria confecção. E é assim que o vejo até esta atualidade, tentando fazer com que eu entenda que interrogações não são tão nobres quanto se pensava.

Simeão e o Damasceno conversavam a beira do cais. Nunca me esquecerei deste dia! Catarina se atarefava no cozer das massas de trigo escassas. Detinha em meu peito um temor, aquele presságio coagulado na garganta. Não pude me conter nas paredes de minha casa. Fui ao encontro deles. Fui ao encontro do cais.

Sabia-se que militares queriam por fim a aquela andacá sem rumo. A palavra genocídio ou a expressão crimes de guerra, não eram pronunciadas pelo povo humilde.

Mas todos eram a boca pequena nas esquinas.

Poucos eram da opinião de que, por mais que fosse importante um poder mais organizado, este não se faria sem hecatombe e por isso, seria inaceitável.

Chegando ao porto me disseram que Cleto, o imperador, tinha sido deposto. E que seu destino foi ter encontrado asilo em um monastério.

Fazia tempo que meus amigos seletos tinham a sincera menção de não mais se surpreenderem com quaisquer das coisas, estas ou outras.

O mar estava sereno.

Estou cansado Catarina. Minhas idéias se oprimiram com cavalos de trote elegante e a opulência do porte pomposo das lanças desta revolução. Estou cansado e deram-me este titulo. Alcunharam desta importância de dentro destas imponentes fortalezas que ergueram de cima de nossa servidão. De não ter outra opção senão chorar o nosso sangue.

Estou velho Catarina, e agra querem que os acompanhe em mais uma expedição. Catarina, um general me encomendou que eu escrevesse uma epopéia… Oh Homero!

Não tiveste náusea a narrar tanto mar e tanta morte? O que farei Catarina?

Teu filho irá com eles. Eu não irei. Antes de partir, faço questão de ouvir sua sentença em condenação. Sei que não importa com o título que perderei. Afinal, te perderei também e o que me vale o titulo de Senhor de Rosários. Aguardo pacientemente a sentença com a pena que hei de cumprir. Hei de cumprir seu juízo Catarina!  

Ananias partiu na terceira nau. Entre os marinheiros daquela embarcação, estava o general Agildo Apolinário, que havia me proposto o texto dos feitos grandiosos desta jornada.

Na primeira caravela, foi o general Leôncio Borges, um excelente cartógrafo que descobrira, a noroeste, terras a desbravar.

Por fim, no ultimo navio, embarcou o marechal Benedito para sua batalha inglória.

Já eu, abriguei-me na tenda de um curandeiro, o qual me instigou a maneira que interpretava os fatos. Quis duvidar mas, terminei por findar minhas hesitações. Passei a apenas concordar com aquela sabedoria exótica.

Recomendou seguir ao leste (onde estaria seguro) para estar seguro do meu próprio espírito.

Não soube de Ananias ou Catarina. O tempo tratou de roer meus sapatos e minhas dúvidas. Concluindo que não haveria solução em ter respostas. Decidi regressar, sem qualquer medo que me viesse acontecer. Estava pronto para a possibilidade de apedrejamento.

Os generais não voltaram de empreitada desmedida. Ananias também não voltou. Não tive coragem de rever Catarina. Acho que tive decência em não revê-la. E o temor do apedrejamento não se consumou. Apenas minha vergonha me consumia.

Em uma ilha à deriva, sem governo, queria descansar, não posso, não consigo.

Queria enfim, apenas acatar o que era do senso comum.

Chegava-se, a saber, que a paz é um estado que não precisa do estado porém, não precisei dele e não tenho paz. E é esse pretérito que me assombra o remorso nas narinas como éter.

No mais fui bem recebido após o exílio. O povo que restou, de maneira resignada, aceitou meu gesto não como de covardia mas, como renuncia.

Sobre minha alcunha, não me confere mais o argumento de explicitar minhas atribuições. Senhor de Rosários! Seus deveres, honrarias ou responsabilidades são encargos e privilégios que já não me dizem respeito.

Sou uma ficção que não desejo representar.

Quero apenas representar desejos mais simples, estes que cabem em devaneios breves e fortuitos.

Acácio e Ananias eram amigos, ambos oficiais do Barão das Demandas, agora devem jazer ao relento, ao final da batalha derradeira. Ou devem flutuar no imenso oceano. Em todo caso, falo de águas e sangue, pólvora e naufrágio. Falo de estarem à deriva, em sua última investida, suas últimas ofensivas. Estas lutas não têm destinatário.

Na casa de Acácio, encontramos um banjo, um Banjo Cipriano.

1
Mar

Sete Cantigas para Pousar/ João Evangelista

Semente reúne condições

Em romper de si

Perfurar chão por dentro

Crescer fora

Morando na terra

Ensinando maciez

Aos novelos de lã

Ensinando nudez

Ao outono

Em meia luz

Coisa vã

Flor alegra cores

Aos dissabores

Jaz sempre sombra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu era ócio

Era alongar os dias

Eu era alongar os ossos

Os pés descalços na janela

Eu era o deleite

De um livro besta

Um filme à toa no pathé

Um atestado de quinze dias

Quinzena bocejando

Escrevendo poesias

Eu era esta negligência

E dos cigarros

A fumaça me esvazia

Eu era esta covardia

Sexo às catorze

Televisão

(programa em reprise)

Às duas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Penso com minhas próprias pernas

Sou uma superposição a mim mesmo

Critico meu próprio ser

Meu próprio esperma

Vivo com um espelho na imaginação

Que ventura

Reproduzo minha voz

E basta que apenas eu ouça

Basta que eu tenha a impressão

De ser impreciso, imprescindível

Sou o presépio de minha morte

E o apocalipse de meu nascimento

Qualquer coisa transmissível

Através de seu corrimento

Sou a corrosão de suas mucosas

A combustão de sua prosa

Bomba de fabricação caseira

Soro caseiro

O santo caseiro sem milagres

Ando com meus próprios pensamentos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ranhura

O rabisco

A hachura

Desenho solto

Textura

Arte contemporânea

O blues na galeria

Me faz lágrimas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do gargalo da estrovenga

Eclodiu a cor

Em flocos de cortiça

Nadando superfície espumante

Efervescendo o calor nos lábios

Da garganta

Afrouxando as pernas aos poucos

Para a palavra chave

A senha para encharcar as taças

E os orifícios

Para temperar a carne

Fecundar carne

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não posso estar de novo

Diante de sua cristaleira

Meus sons se calaram nela

E não deixá-los falar

Nesta sala não posso

Não poderei voltar

Àquele brilho sóbrio e opaco

Silêncio arejado

Dos mais mudos gritos

Sobre a cristaleira

Um porta-retrato

Com uma senhora respirando profundezas

Firme e elegante

De olhos fixos

Qual teria sido seu tempo

Seu álbum de fotografias comentadas

De cara caligrafia

Suposições são tortura

Especialmente as contidas

Em raros cuidados

Não poderemos nos ver aqui

Não aqui

Não novamente

Mas esteja certa

Seus olhos me disseram a agonia

De seu perfume em gavetas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No inicio era o movimento

Então ele falou

Passou a falar um sopro

Que rodopiou o vento com a mão

Girou os astros

Arredou as nuvens

Cantou o firmamento

E choveu

Pois quando chove cessa o silêncio

E houve o som

Ouve o som que há em todos

E movimento viu que era som

Brincou uma onomatopéia de galo

E o resto veio depois

 

 

 

 

 

 

1
Mar

Billie Blasée/ João Evangelista

Faz treze anos que resolvi ficar alheia em mim, decidi que as coisas fossem me acontecendo sem que eu acontecesse nelas. Prontamente estive ansiosa. Depois observei o sabor do tabaco mais táctil. Mas não estava emocionada. Escolhi não cobiçar o que é de pertencimento coletivo, abstrato. A realidade me deixou fascinada demais. Agora sonho a fantasia e ignoro as existências menos raras ao meu desprezo.. vou indo e aos tolos digo que estou cansada. Aos nobres, estou calma e indiferente. Não me servem tolices ou nobreza. Importa-me apenas saber tudo esvaindo do batom nos lábios

 

 

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Rio me das coisas que seguem seu curso de absoluta inutilidade. Mas estão todos animados para o talk show no auditório. Toda iniciativa privada implanta os cinco esses para licitar papel higiênico. As paredes cansaram de ter ouvido, agora falam para os esquizofrênicos. Disseram-me que era importante ir ao velório de Nicodemos. Então aqui estou, rindo-me de minha importância no velório de Nicodemos.

 

 

 

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A vida não é nem um pouco importante. Ela é como um intervalo no meio da realidade concreta e inanimada. Ela é como um conjunto vazio,  um parêntesis ou um entre aspas. Temos um tempo para viver, talvez para recobrar nossas ilusões e cultivar nossas esquisitices. Estas são as que nos dão alguma transcendência.

 

 

 

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Dizem que no México existe um observatório de répteis  exuberante.

 

 

 

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Escamoteio-me em boates, galerias de arte e em festas inconvenientes. Também escamoteio-me da minha reclusão. Céu aberto, praças, parques, salve!

 

 

 

Minhas partes íntimas são miméticas. Comungam com a cor de seu lingerie brunido de corrimento.

 

 

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A colônia humana tem se mostrado muito sem polimento. Não anda me agradando muito não.

 

 

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Sei o caminho que meus sapatos devem pisar. Sou hermeticamente fechada e prossigo no batidão sem dirigir a palavra a ninguém.

 

 

 

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O veneno do mundo não está nos lábios da prostituta. A sedução é má, mas é bela e verdadeira. O veneno do mundo é a mentira que ele próprio conta.

 

 

 

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Minhas tias dizem duvidar de homens que pintam o cabelo .

 

 

 

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O tempo é um pêndulo com papoulas dependuradas nele. Suspensas e suspeitando das cantigas de amor e morte.

 

 

 

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Desconheço o motivo de minha boa compleição para as cinzas.

 

 

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O corpo veste o vermelho atrás do incêndio . é só o embaraço de reconhecer sua aclimatação e o contexto da silueta. Nada condiz com as descrições. As idéias estão carbonizadas.

 

 

 

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O contágio é uma troca de biologias que travam conhecimento a pouco tempo. O risco é um ofício de não saber. Relógios e despertadores são o vício da saúde.

 

 

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Os invernos setentrionais possuem instituições  que pertencem à compreensão de suas maçãs endêmicas.

 

 

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Hamurabi, Artaxerxes, Nabucodonosor, exijo o reembolso postal!

 

 

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A ingerência de me saber morta sem algodões nos orifícios me cabe em salões de velório intransigentemente.

 

 

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Considero a música barroca uma música cenário. Numa socidade humana ideal, caberia à música barroca ser tocada em elevadores ou motéis… mas, numa sociedade humana ideal  não haveri elevadores ou motéis… pelo menos na minha concepção.

 

 

Conheci um monge que deixou de lado todas as suas  litanias e desapareceu buscando imitar o canto dos pássaros que lhe aparecessem.

 

 

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Ressuscitei, sim ressuscitei, mas, sem boa nova, sem teogonia ou cavalo que fuja a galope.

 

 

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Já que curvei meu rosto, curvei meu dorso, como um feto, posso dizer que minha casa é um útero cheio de miomas. Posso dizer que minha cabeça está viciada em axiomas.

 

 

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De todas as soluções que os livros nos propõem prefiro as mais enfadonhas.

 

 

 

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Eu saio da sintaxe, eu entro na milonga. Depois me envagino em seus miasmas.

 

 

 

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Sylvia gosta de seu professor de música ele costuma dizer a ela que as partituras são como biombos. Isso me faz gostar mais ainda dela.

 

 

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Neste marasmo de almas dispersas. Nossos corpos parecem não ter gravidade. No espaço no espasmo, no sarcasmo, no sarcoma, no linfoma, no coma induzido da redoma de ratos no cio…

 

 

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O enredo do seu engodo não me excita mais. Hesito entre trama e cama. Caminho até a desordem da prateleira de seus discos, não há muito que se fazer.

 

 

 

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Não posso mais ouvir o grito do meu irmão carvoeiro, meu irmão cortador de cana, do meu irmão lenhador, do meu irmão da moenda. Cada um conseguiu comprar sua televisão. E a mim só me restou usar a minha também.

 

 

 

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E é assim que tudo me acontece, sei esperar. Sei também ignorar. Mas não fico tranqüila. Não estou em paz co o que me aparece, ou aparenta ser. Não há em mim naturalidades triviais. Deixo me humilhada por mim a espontaneidade eu guardo no sorriso interior. A cidade inteira passa por mim e eu peremptória. Esperar é enrijecer-me, despojar-me desse falso lirismo do qual fui vítima. A humanidade é poesia distraída e displicente. Fui machucada em ser este signo. Hoje o meu gesto é o de caminhar sem origem. Talvez o mundo não mereça minha preocupação. Pois, se merecesse seria constantemente irritada por boas intenções sem sentido e sem aplicação vindas dos outros. Confesso, essa vida sem escolher destino prudente me deixou mais animada..

 

 

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Faz treze anos que ele é meu homem. Seu sexo é um ritual, mas não exalta nenhuma divindade , tampouco profanação. É repetitivo mas eu gosto. Desde sempre usa chapéu panamá. Desde sempre acha que eu gosto de seu chapéu. Desde sempre o usa como se soubesse que eu gostasse. Ele não sabe. Mas eu gosto. Gosto de seu pulmão com sílica. Que é uma siderurgia bufando estanho em meus seios. Gosto de sua epiderme de amianto, de sua sensibilidade de chumbo. Desde sempre ele me usa como se soubesse que eu gosto. Ele não sabe. Mas eu gosto. Seu ócio de canivete, fumo de rolo e observar mormaço,  me seduz. Ele acha que sabe que me seduz. Mas ele não sabe. Mas eu gosto. Gosto dele ir  se equivocando em minha saia no quarto escuro. Fico aniquilada, sem palavras, perto de suas precipitações. Fico perturbada com seu perfume barato e seu suor bêbado. Ele acha que sabe. Mas eu sei. Ele não sabe. Seus braços me contornam e minhas pernas ficam tremendo. Faz treze anos que sou a mulher dele.

 

 

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Faz treze anos que descobri que a falta de justificativas, seria melhor para a vida. . No entanto, estou aqui justificada não por julgar ser necessário. Ai de mim que, antes de escrever estas linhas , achava que seria uma satisfação inédita… mesmo assim, digo obrigada a mim mesma.

1
Mar

Dois Contos de Réus/João Evangelista

Um homem surge aos poucos, mancando, subindo uma alameda de terra batida que dá para o antigo casarão em pedaços do finado Cícero, patriarca de um pequeno im­pério: a única funerária de Mar de Garças. Todas as casas num raio de uns cento e cin­qüenta metros eram de seus herdeiros. Havia uma casa em que eu, Antônio, morava. E era a única que não fazia parte do patrimônio dos filhos do velho Cícero. Não por acaso, meu pai a vendeu para um deles quando minha mãe morreu. Desde então, eu nunca voltei a Mar de Garças.

            Os postes ficavam longe do casarão que se escurecia em abandono. Muitos mor­reram. No passado, era possível ver netos e bisnetos de Cícero brincarem de olhar a cidade do alto, se revezando entre as janelas intercalando as vistas da cidade. Coisa que faço, agora, na minha primeira volta à cidade, sobrepondo nas retinas pontos de vista, pontos de fuga do lugar que fragmento em paisagens, por tentar compreendê-la neste banco anoitecido ao lado do velho casarão onde se fabricavam caixões.

            O homem que surgia finalmente chega ao ponto de, lentamente, esboçar gestos  no propósito de me reconhecer:

            _ Dimas? _ o saudei.

            _ Quem é?

            _ Antônio!

            _ Antônio?

            _ Antônio de Eliseu…

            _ Tonim?

            _ É!

            _ Você era um menino custoso… melhorou?

            _ Estou tentando.

            _ Tonim!

            _ O que foi na perna?

            _ Joelho… trouxe esta vasilha para apanhar com minha cunhada um preparado que ela faz…

            _ Melhora?

            _ Ajuda…você entra?

            _ Não, Dimas…você ainda toca os sinos da matriz quando alguém morre?

            _ Do mesmo jeito Tonim… não entra?

            _ Não, não, obrigado!

            _ Até mais, Tonim!

            _ Até…

            Os sinos… era fascinado com eles na minha infância. Dimas os tocava a cada óbito. A impressão que tenho é que Dimas os toca desde sempre, desde quando eu gos­tava de me sentar neste banco em que estou agora. E o silêncio da cidade nessas horas já justificaria o luto. A qualquer hora que o sino tocasse, a igreja matriz de S. Onofre era imponente, diante o casarão. Como não lembrar disso. As escadas que Dimas subia, as escadas das torres, eram de madeira do século XVIII. Uma coruja riscou o céu piando e, planando rapidamente, ganhou as antesalas da igreja.

 

           

 

 

 

 

 

-

            - Boa noite! É novo aqui?

            _ É… digamos que sim! Prazer, meu nome é Antônio.

            _ É novo mesmo, nunca ouvi falar de você. Prazer, sou Dimas.

            _ Você é filho do outro Dimas?

            _ Sim!

            _ Não me lembro de você!

            _ Nem eu…

            _ Você ouviu o pio da coruja? 

            _ Sim.

            _ Me veio um nome, uma imagem: “Katyuchas riscando o céu de Strawberry Fields”.

            _ O quê?

            _ É como um metáfora, entende?

            _ Sim, mas não consigo ver significância nelas… O que são katyuchas e o que são strawberry fields?

            _ Esquece…

            _ Quer um cigarro de palha?

            _ Aceito.. cheira bem, onde comprou?

            _ Na venda de seu Zé Nonato.

            _ Não conheço. É nova?

            _ È , é sim. Bem, vou indo embora. Tenho que tocar o sino.

            _ Mas não é seu pai quem toca?

            _ Pai está debilitado.

            _ Quem morreu esta noite?

            _ De que adiantaria te falar, você não conhece nada por aqui mesmo!

            _ Tem razão.

            _ Até mais.

            _ Até mais, Dimas.

            “Katyuchas riscando o céu de Strawberry Fields!” A coruja piou novamente e ouviu-se também um grito de dentro do casarão:

            _ Dimas! Dimas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A porta rangeu novamente, como inúmeras vezes naquela noite. Os movimentos que fiz para cerrá-la, a fim de que o frio não invadisse o resto da casa (e dos indiferen­tes) não eram bruscos. Ninguém se lembra de quando a porta rangeu pela primeira vez. Mas isso, aos meus ouvidos, era uma lembrança de todas as vezes que ela rangeu. Havia uma fenda na parte superior.

            Ganhou a varanda e fez tremer a cadeira quando se sentou e a empurrou com suas costas. Pôs o cotovelo na velha mesa e a mão no queixo. Rodin devia estar se re­moendo em seu túmulo. Na mesa havia um exemplar de Mensagem. Ai do crítico que não considere esta obra a única epopéia moderna!

            Pensou então olhando para aquela encadernação: eram três os reis magos, mas se fossem quatro? Se fossem zoroástricos? E se o oráculo deles lhes tivesse dito para se­guir uma estrela e um discordou e foi seguir outra? E se este dissidente, ao final da via­gem, tivesse encontrado um neto de Cleópatra? Daria um belo conto.

            Fumou o último cigarro. Apanhou o volume de Fernando Pessoa.

            _ Boa noite, vó.

            _ Já vai, meu filho?

            _ Vou.

            _ Vá com Deus.

            _ Amém.

 

            Já na quinta cerveja alguém perguntou:

            _ Cacá, qual o seu nome?

            _ Huáscar.

            _ Deus tem piedade.

            Falou o protagonista:

            _ Um imperador inca ou asteca… não sei.

            _ É isso, disse Sofia.

            _ Huáscar traiu Ataualpa e depois foi executado pelos espanhóis.

            _ Não. Foi o contrário.

            Falou de novo o protagonista:

            _ Não, Sofia. Seu irmão está certo.

            _ Inácio, tem um livro aqui em casa. Eu te provo que não. Sofia passou o resto da festa procurando o livro sem sucesso.                      

            A porta bate:

            _ Sofia!

            _ Inácio, você estava certo sobre a questão de Huáscar e Ataualpa.

            _ Não te falei…

            _ Agora não venha me dizer que você está sempre certo…

            _ Quase…

            _ Posso fumar unzinho aqui?

            _ Acho que dona Wilma saiu com os cachorros. Pode. Veja este esboço de conto que andei rabiscando ainda há pouco.

            _ Deixe-me ver… Quatro reis magos… dúvidas na escolha da estrela… um dissi­dente… neto de Cleópatra?

            _ É!

            _ Mas isso é estapafúrdio!

            _ O melhor elogio possível!

            Sofia levou a mão ao rosto de Inácio.

            _ Não ando fazendo a barba.

            _ O que é isso?

            _ É que eu tenho o hábito de comer bolachas debaixo da coberta.

            _ Que nojeira!

            Sofia começou a comer os farelos que se encontravam à altura das partes baixas de Inácio.

            _ Vai encontrar aí farelos de sexo solitário.

            O riso foi descabido.

            _ Caminhamos no bosque amanhã?

            _ Sim, disse ela saindo.

            E  a noite dissolveu os homens.

 

 

 

25
Fev

Poesia/ João Evangelista

trevo quatro folhas

fortuna em alaúdes

ponteando cantiga

ao quebranto

trovas, qualquer prece

em terço

em rosário

vento ao trazer vocábulos

a espantar pranto

banzo em brisa quente

banjos ao aguardente

guardar o sentir

resvalar tangente

abandonada

25
Fev

Três sortimentos/ João Evangelista

O  ovo, assim como o conhecemos, poderia também ser uma esfera que errou em elipse…. mas, nada que sai do plano da circunferência ganha facilmente a unidade da medida orgânica. Neste caso, é preciso romper a casca. Os corpos maciços conferem a si mesmos a absorção de todo o resto.

Já o ovo com os lados de dentro e de fora, prescinde ruptura para mostrar ao externo a mesma amálgama que presume seu dentro.

Se há rompimento, o ciclo se inicia interior. Ao contrário do que se pode pensar, isto não se opõe à idéia maciça e também recebe pulsões de fora como fagulha de sua laboriosa tarefa interna e de aparente inércia calcificada.

É o trabalho chocante da cloaca, fornecendo calor à sua obra mais significativa.

Nem a cloaca nem o ovo supõem deus ou Darwin.

Talvez lá onde é centro, onde não é canto, percebem-se milagres

E os frutos do ovo terão patas. E, durante algum tempo, seguirão a sua cloaca de origem e suas orientações. Até a época da feitura de outros ninhos. Templos da maturação das gemas e da transformação das cascas.

Permanece o cheiro vivo e úmido do seu olho, perfurando meu vestido, indo encontrar meus seios, em suposição de mamilos arrepiados, irradiados por desejos que irrompem os botões insistentes, da seda que se aquece e queima, cria-se o hábito da memória de sua silueta, na disformidade do ímpeto e do contemplar minhas ancas, seus braços descobrem a assimetria no ato descriterioso de me despir, a gana do olho lamindao de instinto cintila inquieta, e quer os sinais da minha entrega, sopram fôlegos da minha garganta em desencontro de olhar melhor o verbo no qual sua conjugação se encaixa no coito, na consumação dos tratos, o olho está na fotografia e salta no estalo de gemer suspiros, nunca descritos, sob pena do corpo findar na surdez das palavras, juras de amor e disparates