IDEIA MARGINAL
Você que se transforma
Em alquimia de absurdos
A leveza do chumbo
Em seu verbo macio
É o peso da lã
O novelo antigo
É a linha do mosaico
De sua obra finalizada
Simbiose de carne crua
Nua verdade
Desnaturada em casulo
De seu tempo de areia
E de água
Realidade saturada
Em mar, deserto
Amplidão
E você
Na completude
Da vontade dos relógios
O ovo oco
Advento da forma essencial
Sem conteúdo
Núcleo e citoplasma
Nulos
Estética do vazio
Desenho com traço de inutilidade
Concebido por cloaca
De vanguarda
Provoca discussões
A respeito da unidade
Seu centro vácuo
Resolve questão
De galinha choca
Galinha de design moderno
Abre precedentes
Ninhos inteligentes
Estanho
Amianto
Atmosfera
Em tons de sépia
Mas calma
Esperando a fúria
De magma depois cinza
De fresta impronunciável
Senda inominável
Dar nome aos bois
Às estrelas
E aos automóveis
Todos os fatos
Não passam de especulação táctil
A cortina de fumaça
Confere aos corpos
Nossa ignorância
O espectro de cores
Empalidece
Os timbres distorcidos
O câncer na garganta
Tabaco e usinas
O beijo da mulher aranha
Cinzas
Finas camadas
Textura decantada
Repousando sobre a brasa
Brasa
Corpo de inconstâncias
Vibrando calor vermelho
Transformação em fumaça
Fumaça
Prolongamento do fogo
Em sua diluição
Partículas de oxigênio no fogo
Fogo
Anterior a tantas outras
Coisas
Coisas
Em conjunto com a roda
E descobertas cuneiformes
Fumar
Sugar o sumo das fagulhas
Geralmente de folhas secas
Vigília poética
Sobre a pedra antiga
Lisa
A roer os pés
E ranger marés
Escorregam motetos
Na lua nova
Num tempo ancestral
O velho adorno
Cruz
Arte fato
Um senhor que morreu
Permaneceu morto três dias
Um galo que canta
Três vezes
Todos os dias
Não!
Sobressai a ladainha
Uma eternidade no chão
Uma chaga no pé
Noite
Romaria
Uma chaga na mão
Uma eternidade no passado
No movimento pendular
Do relógio
Do turíbulo
No eco secular
Das matracas
Neste visgo e jejum
Nesta terra
Chorando sangue
E verônicas veladas
Em sinos
Que só anunciam o fim
Este milagre do começo
O primeiro grito
Da primeira besta fera
Vem tudo findar
Nestes passos fúnebres
No sono do oceano
Onde a chaga
Dói
Aperta o nó
É quando deposito meus desastres
Em explosões
Numa espuma branca
Do sal de outros ofícios
Ecoando tempos novos lamentos
Antigas feridas
Brotando
Como flores de epiderme
Lágrimas de orvalho
Na carne do caule suspenso
Nas vagens cujas sementes
Verde vagar
Navalha
Rosa de ventos
Esculpir muros, lamentos
Este torpor
Este soberbo sopro
De mão turva
Manobrando
O riscado no chão
O desenho lânguido
O salão vazio de som
E a soleira
De visão equivocada
Entre pé e parapeito
Arrebentação
E quebra de maresia
Na música do mar
Inteira numa concha
Quebram acordes atonais
Pelas fossas nasais
Quebram em chuva
As nuvens de tempestade
Distante
De qualquer evento astral
Importante
Permanece o cheiro
Do azedume
A temperar a carne fresca
Dos cardumes
Recolhendo salmouras
Conservando
Cores em escamas
Da sobriedade
De cena improvisada
Em sua anatomia
Reservatório
De líquidos e desova
Rema
Naquela enseada
Num banco de areia
Um látex
Que resolve os homens
Apaga-lhes a saudade
Mereja
Desorientando as formigas